25 de set de 2010

PEDOFILIA, UMA PERVERSÃO


artigo do Dr. Geraldino Alves Ferreira Netto - Revista Ciência e  Vida:



 PSIQUE



“Amor à criança” é uma linda etimologia para a palavra ‘pedofilia’, amor este que deveríamos encontrar em todos os relacionamentos dos pais que amam  
seus filhos. 







Mas o termo fugiu de seu s ignificado original, tomando uma acepção

completamente pejorativa, descrevendo a atração sexual de um adulto por uma criança, no sentido de um abuso sexual criminal. 

O mesmo sentido, também em grego, é atribuído ao termo ‘pederastia’, cujo uso linguístico passou a implicar numa prática sexual condenável entre um adulto e um adolescente. 

Já houve época em que a atividade sexual entre pessoas de idades bem distanciadas e do mesmo sexo era considerada ideal, sem censura, como lemos n’O Banquete de Platão. 

Vê-se que a cultura é mutante.

A insistência com que a mídia atual nos bombardeia com notícias sobre práticas de pedofilia nos interroga sobre o caldo de cultura que propicia seu recrudescimento. 

Seria suficiente alegar que o acesso das crianças à mídia eletrônica (internet, celulares) explicaria a facilitação e busca de tais ‘divertimentos’? 

Os criadores, divulgadores e mantenedores de tais instrumentos são adultos, que os comercializam. 

É dispensável alegar que nada disto existia na citada época áurea da Filosofia Grega, 400 anos antes de Cristo.

Com a expansão da internet no mundo inteiro, imune a qualquer tipo de controle
ou barreira nacional ou internacional, a pornografia infantil assumiu
proporções assustadoras. 

No Brasil, o Ministério Público Federal computou 56.000 denúncias só nos últimos dois anos. 

Mais de 80% delas envolvem o serviço de relacionamentos Orkut, da empresa Google. 

Recentemente, foi criada a CPI da Pedofilia, que já aprovou a quebra de sigilo de 3261 álbuns de pornografia infantil. (Jornal Folha de S. Paulo, de 10-04-08).

A partir de 1850, os manuais de Psiquiatria elencaram várias formas de
comportamentos chamados de perversões. 

A primeira lista incluía: incesto, homossexualidade, zoofilia, pedofilia, pederastia, fetichismo, sadomasoquismo, transvestismo, narcisismo, autoerotismo, coprofilia, necrofilia, exibicionismo, voyeurismo, mutilações sexuais. 

Esta lista foi modificada inúmeras vezes, com acréscimos e substituições, até que, em 1995, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DMS-IV-TM, suprimiu os conceitos de perversões e homossexualidade, chamadas agora de “parafilias”, apelando de novo ao grego, com o sentido de ‘amores paralelos, à margem’.

Pouco importam as denominações. 

O fundamental é o critério utilizado para classificar tais comportamentos como perversos. 

Antes do surgimento da psicanálise, a sexualidade se baseava naquilo que se considerava como objetivo específico do ato sexual, a reprodução. Havia unanimidade nos vários discursos:

religioso, médico, jurídico e social quanto a esse critério. 

Consequentemente, todo ato sexual que impossibilitasse ou impedisse a reprodução era considerado intrinsecamente mau, pecaminoso, perverso.

Ainda hoje, alguns discursos religiosos continuam mantendo o mesmo critério, argumentando, por exemplo, que a utilização de preservativos é contra a natureza, por impedir a concepção, estendendo o mesmo raciocínio para a prática da homossexualidade, mantendo uma proibição incondicional a tais atos e condenando aqueles que os praticam.


Freud veio revolucionar o conceito de sexualidade, direcionando-a para outro objetivo, a busca do prazer, e ousando afirmar a existência de uma sexualidade
infantil, polimorfamente perversa, até então ignorada.

A resistência a esta teoria veio da ignorância por parte dos adultos, e da dificuldade de entenderem a distinção feita por Freud entre o sexual e o genital.

Falar em sexualidade infantil não inclui a genitalidade análoga à do adulto.

A genitalidade propriamente dita exige uma disposição física e orgânica que a
criança ainda não atingiu, mas a sexualidade já está presente nela, como
componente de ordem psíquica.

Quando Freud atribuía o valor de normalidade a essas perversões infantis,
compostas de curiosidade pelo sexo oposto, voyeurismo, exibicionismo e toques
físicos, estava descrevendo um comportamento que as crianças pequenas
desenvolvem entre si, todas da mesma idade ou de idade aproximada. 

Tais comportamentos implicam num aprendizado pedagógico e lúdico, nos quais as crianças começam a adquirir as primeiras informações espontâneas, sadias e não traumáticas, sobre a diferença anatômica, os mistérios da vida e da
sexualidade.

Tais informações e experiências sobre os mistérios da sexualidade as crianças
recebem também dos adultos, os pais, as babás, as enfermeiras, todos aqueles
que cuidam delas, ou fazem a hoje chamada ‘função materna’. 

Dar banho, trocar as fraldas, vestir as roupas são momentos em que os adultos precisam tocar o corpo da criança. 

Esta, por sua vez, pode sentir prazer erótico, sobretudo quando se trata de tocar seus genitais. 

As mães costumam se sentir mais à vontade neste mister, mas os pais costumam inibir-se de tocar o corpo de suas filhinhas ou de vesti-las. 

Sem dúvida que, em nossos dias, observa-se mais liberalidade para mães e pais se despirem diante dos filhos pequenos, inclusive tomando banho juntos. 

O que importa não é esconder ou exibir o próprio corpo, mas o mistério intrigante envolvido aí ou, ao contrário, a naturalidade com que isso é feito.

Freud conta, em texto publicado em 1909, um detalhe curioso no caso clínico do
Pequeno Hans, uma criança de quatro anos que ele orientava através do pai do
menino. 

Na hora do banho de Hans, diz Freud:

“Quando a mãe lhe passava talco em volta de seu pênis, tomando cuidado para não tocá-lo, Hans lhe disse: 

Por que é que você não põe seu dedo ai?” 

Na mesma página deste relato, em nota de rodapé, Freud conta outra história de uma mãe com sua filha. 

A mãe “tinha mandado fazer umas calcinhas para a menina, e as estava experimentando nela, para ver se não estavam apertadas demais, quando andasse. 

Para isso, ela, a mãe, passava sua mão pelo lado interno da coxa da criança. 

De repente, a menina fechou as pernas, apertando a mão da mãe e dizendo: Mamãe, por favor, deixe a sua mão aí, é tão gostoso!”


Em outro texto, de 1930, pouco conhecido e não incluído nas Obras Completas, em que Freud escreveu, em parceria, a biografia de Thomas Woodrow Wilson, um
Presidente dos Estados Unidos, encontramos uma comparação muito original da
relação mãe-criança. 

O bebê é comparado aí com um ‘acumulador de energia’, como a bateria de um carro, que precisa receber uma carga de energia para fazer funcionar o motor. 

A mãe, por sua vez, é chamada de ‘usina libidinal’, cabendo-lhe a tarefa de transmitir ao filho uma quantidade de energia. 

Ela o faz não só pelos cuidados de higiene e alimentação, mas, sobretudo, pelo afeto e amor que transmite quando proporciona os cuidados próprios da função materna.

Ela o faz quando acalenta e acalanta seu bebê. 

Trata-se de uma energia erogenizada, carregada do desejo da mãe e que provoca desejo no filho também.

Na sequência, alguém tem que desligar a bateria da tomada, função que recebe a
denominação de paterna. 

Isto é, o Complexo de Édipo supõe um momento inicial incestuoso, seguido da operação de castração, de interdição, para que a criança possa ingressar no mundo da lei, da cultura, da sociedade. 

A castração não proíbe à criança continuar desejando a mãe e o pai como tais, mas proíbe que ela os deseje sexualmente como mulher e homem. 

Aquela perversão infantil inicial, normal, inclusive incestuosa, vai transformar-se possivelmente numa neurose que podemos chamar de normal também, decorrente, esta, do recalque sobre os desejos incestuosos.


O que faz a diferença entre a psiquiatria e a psicanálise é que a primeira apresenta listas de perversões ou parafilias, que são comportamentos
observáveis e classificáveis, fenomenológicos, considerados transtornos
patológicos, enquanto que, para a psicanálise, tais atos são normais, desde que
propiciem prazer àqueles que os praticam, adultos que consentem em participar,
solitária ou solidariamente, dos mesmos. 

Nesta perspectiva, nenhuma atividade sexual é intrinsecamente má, nem um ato reprovável pela sua própria natureza. 

A palavra ‘perversão’ é então tomada em seu sentido etimológico de ‘várias versões’, ou várias maneiras de se conseguir prazer com o sexo. 

E o conceito de perversão, na psicanálise, no singular e não no plural, é uma posição psíquica subjetiva, uma estrutura clínica, diante da castração.


Quanto à pedofilia ser uma perversão, a resposta é afirmativa tanto dentro do tradicional conceito psiquiátrico, como ato intrinsecamente mau, quanto
dentro da definição psicanalítica de estrutura clínica perversa.


O Dicionário Houaiss da língua portuguesa assim define a pedofilia:
1. perversão que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por
crianças; 
2. prática efetiva de atos sexuais com crianças (p. ex., estimulação
genital, carícias sensuais, coito etc).


Costuma haver algum mal-entendido com as noções de pedofilia, pederastia, molestamento sexual, assédio sexual e abuso sexual. 

Neste particular, nossa legislação é uma das mais avançadas do mundo, conhecida como O Estatuto da criança e do adolescente, Lei 8.069/1990. 

Aí não se faz referência explícita ao termo ‘pedofilia’, reservado à psiquiatria e à psicopatologia, mas, no artigo 241-D seu conteúdo é descrito como: Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso. 

No artigo 87, são citados: maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão. No artigo 17, é garantida: a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente.


Todas as infrações citadas acima são consideradas pelo Estatuto como crimes, independente de se tratar de uma criança ou de um adolescente, e as penalidades
são também as mesmas, sem atenuante com relação à idade do menor. 

É considerada criança a pessoa de até 12 anos, e adolescente (menor) até os 18 anos.


Não é tão fácil caracterizar o crime de pedofilia, se levarmos em conta a definição do Dicionário Houaiss, porque, no primeiro sentido que ele apresenta,
de atração sexual do adulto pela criança, teríamos uma pedofilia lato sensu,
quase platônica, que, circunscrita somente à fantasia do adulto, sem agregar
uma prática sexual, não seria crime. 

O segundo sentido descreve a pedofilia propriamente dita, que inclui a prática sexual do adulto com crianças. 

Mesmo nessa, a costumeira ausência de testemunhas pode dificultar a investigação, mas não a caracterização pedófila.


Com relação ao Estatuto da criança e do adolescente, bem mais taxativo, também não se fica totalmente livre de uma interpretação ambígua, porque a
cláusula que diz: ‘com o fim de com ela (a criança) praticar ato libidinoso’
pode levar o infrator a se defender dizendo que não intencionava chegar a esta
finalidade. 

Quando, porém, o Estatuto garante a integridade física, psíquica e
moral da criança e do adolescente, qualquer Juiz que conheça um mínimo de
psicologia tem obrigação de agir com rigor, diante de qualquer forma de
coerção, na defesa de um ser humano totalmente vulnerável e frágil em sua
estrutura psíquica. 

Não é por acaso, portanto, que vários crimes desta natureza
tenham, na prática, recebido penas mais brandas por supostas atenuantes.


O que é assédio sexual? 

O substantivo ‘assédio’ é um termo militar, que significa cercar, sitiar, perseguir com insistência e importunidade. 

O assédio é mais grave que uma simples cantada ou um gracejo, porque pode estar forçando a pessoa a aceitar algo em troca de vantagem, caracterizando uma ameaça constrangedora.


E o molestamento? 
É forçar a barra, causando mágoa, desgosto e ofensa. 
A etimologia é ‘mole’, uma massa de pedra, algo pesado que se impõe a alguém
contra sua vontade, algo de mau gosto, em geral.


O abuso sexual já tem um sentido bem definido, incluindo o uso do corpo do outro, não deixando margem para dúvidas quanto ao caráter invasivo de pedofilia
contido aí.


A psicanálise apresenta outros argumentos teóricos para afirmar que, na pedofilia, não há parvidade de matéria, pelo simples motivo de que não existe
nenhum quantificador objetivo para medir a gravidade do caso. 

Tudo aqui se passa no registro da subjetividade, onde não se pode generalizar nada. 

Nós, psicanalistas, estamos acostumados a ouvir relatos de adultos que foram
molestados de diversas formas, na infância, e que não conseguiram ainda,
passados 30 ou 40 anos, assimilar ou significar os acontecimentos. 

Alguns poucos minutos de prazer de um adulto podem transformar-se em sofrimento, mágoa, vergonha, angústia e baixa autoestima pelo resto da vida da criança.


Costuma-se alegar, para justificar a prática da pedofilia, que a criança gostou, consentiu, ou não se opôs. Estamos aqui no cerne da questão.

Acontece que a única experiência que a criança conhecia, até então, foi aquela vivida dentro da família, com os cuidados maternos descritos acima. 

Por mais íntima que seja a intervenção da mãe ou do pai nos cuidados com os filhos, é uma intimidade que tem limites precisos, impostos pelos próprios pais, com raras exceções. 

A experiência transcendental da maternidade ou paternidade é de tal
dimensão que desenvolve um profundo respeito pela criança, a própria ou a dos
outros.


A vivência incestuosa, permitida, mas provisória, no início da fase do Complexo de Édipo, que significa uma posse total imaginária da criança em
relação aos pais, é inevitável para servir de base para a operação da castração
que vem depois, reorganizando e definindo o lugar simbólico de cada elemento na cadeia do parentesco.


Argumenta-se também, para justificar as queixas de pedofilia, que uma das descobertas desconcertantes de Freud foi a teoria da fantasia, que desbancou as
muitas afirmações de sedução real feitas pelas histéricas da época. 

Elas alegavam que tinham sido seduzidas por adultos, quando crianças, quase sempre dentro das linhas diretas de parentesco, quando, de fato, foram elas que
criaram estas cenas no imaginário da fantasia. 

Tratava-se de um desejo da criança e não uma verificação de sedução. 

No início, foi difícil para Freud admitir isso, porque a convicção que ele tinha quanto à realidade dos fatos de sedução era tanta que, segundo Elisabeth Roudinesco, no livro A parte obscura de nós mesmos, ele chegou a suspeitar de que seu próprio pai tivesse abusado sexualmente dos filhos. 

Era uma dedução puramente teórica, e falsa. 

Não é nada improvável que as crianças de hoje continuem fantasiando aventuras sexuais. 

Mas não se pode negar também que nem tudo é fantasia nesta área. 

Muitos fatos reais de abuso sexual se comprovam.


Acontece que, para uma criança, o máximo que ela conhece são aquelas mesmas experiências de carinho e atenção que ela recebe dos pais em casa. 

Assim, quando um adulto, estranho ao meio familiar, se oferece para fazer um agrado numa criança, ela espera que vai tudo ser como seus pais fazem, porque confiam na honestidade, seriedade e superioridade dos adultos.

Elas pensam que o pedófilo vai só retomar a função materna de cuidados e atenção.


Se defendemos a tese de que a pedofilia é uma das perversões elencadas nos manuais de psiquiatria e que também se inclui na definição de perversão
proposta pela psicanálise, resta esclarecer o que é a perversão como estrutura
clínica. 

A melhor e mais avançada definição de perversão foi a que Lacan apresentou. 
Fazendo um jogo de palavras tipicamente francês, chamou-a de
père-version (versão do pai, versão da lei), uma das ‘escolhas’ subjetivas
inconscientes que podemos fazer diante da lei da proibição do incesto. 

Seguindo sua trilha de desbiologizar e dessexualizar o Complexo de Édipo, Lacan propõe pensar que a perversão não se constitui de nenhum tipo de atividade sexual propriamente dita, mas está inserida na estrutura do discurso.

Quer dizer, se o psicótico está, de certa forma, fora da lei da linguagem codificada, pela forclusão do significante do Nome-do-Pai, ou ausência da castração, e se o neurótico está amarrado no laço social e simbólico da linguagem, pela submissão à lei do pai, o perverso é aquele que oscila entre o simbólico da linguagem e o imaginário de uma lei caprichosa que ele inventa para si mesmo em determinadas situações que lhe convenham, a seu bel-prazer.


Jacques Lacan define a perversão como uma inversão do simbólico pelo imaginário, a saber: o perverso cria um entorno simbólico, dando a entender que
se trata de uma coisa, quando sua intenção é surpreender a vítima com algo
totalmente diferente daquilo que ela esperava.


O perverso utiliza (ou abusa) do outro para seu próprio gozo. 

Se a linguagem, no neurótico, está sujeita ao mal-entendido, pela polissemia do
significante, no perverso ocorre o mal-intencionado, a intenção de enganar. 

É aqui que localizamos o drama da pedofilia. 

A criança está bem-intencionada, o adulto está mal-intencionado, e assim o mal-entendido se estabelece. 

O que a criança espera do adulto pedófilo não é a mesma coisa que ele tenciona oferecer para ela. 

Há uma dissimetria profunda entre os desejos da criança e os do adulto. 

Ela pensa que o adulto vai só repetir aqueles carinhos amorosos que
seus pais lhe dão, já chamados de função materna, com limites precisos, sem
suspeitar de algo que ela ainda não conhece, uma experiência sexual-genital,
para a qual não está preparada nem física nem psicologicamente, sem chance,
portanto, de consentir. 

Ela entra com a ternura, e ele, com a paixão. 

Ela fica atordoada com a novidade, percebe que algo está errado, sente culpa por uma identificação com a culpa do agressor, tem medo de contar para os pais, até
porque normalmente é ameaçada no caso de comentar com alguém. 

Aí começa o trauma, aí está o crime.
O trauma não acontece só quando há algum tipo de intercurso sexual. 

Mesmo quando a abordagem física não acontece concretamente, um dano moral ou psicológico é suficiente para traumatizar uma criança.


Como se trata de algo que é recalcado para o inconsciente, não é possível fazer previsão nem avaliação do grau de sofrimento decorrente, porque não há
correlação mensurável entre o ato (de aliciamento, molestamento, abuso) e suas
consequências, totalmente imprevisíveis na vulnerabilidade subjetiva de uma
criança.


Uma das teses sociais da psicanálise e da antropologia é que a sociedade só pode organizar-se e sobreviver se for mantida e observada a proibição do
incesto. 

O incesto real, que não deve ser confundido com a fantasia de incesto
comum a todos nós, é uma forma de pedofilia que ainda traz a agravante da
relação direta de parentesco e da falha da função paterna de impor a lei.
O incesto está presente na humanidade desde sempre. Já encontramos relatos na
Bíblia, no Antigo Testamento.

Na literatura, temos o clássico Édipo-Rei, de Sófocles, quase quinhentos anos antes de Cristo. 

Um século atrás, a teorização de Freud sobre o Complexo de Édipo fez com que qualquer pessoa, hoje, mesmo não familiarizada com a psicanálise, discorra sobre o tema com domínio fácil.


A imprensa mundial relatou, recentemente, o caso de um homem, na Áustria, que viveu incestuosamente com sua filha durante muitos anos, com a qual teve
filhos. 

No Brasil, segundo o Jornal O Globo, de 05-05-2010, um rapaz
pernambucano de 29 anos foi preso por engravidar sua irmã de 11 anos, que já
estava no oitavo mês de gestação quando foi feita a divulgação. 

Os pais deles vinham tentando encobrir o crime, mas acabaram fazendo a denúncia. 

O indiciado alega que foi seduzido pela irmã.


Mas é na área da pedofilia que a imprensa mundial vem denunciando muitos escândalos. 

Curiosamente, os casos mais frequentes e recentes envolvem religiosos celibatários, inclusive da alta hierarquia eclesiástica católica, na faixa de 70-80 anos de idade, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

O próprio Papa vem sendo acusado de conivência com os religiosos envolvidos.
Vários bispos católicos renunciaram ao cargo recentemente, em consequência de
denúncias comprovadas, e a Igreja tem desembolsado somas enormes de dinheiro
para indenizar as vítimas de pedofilia. 

Ainda no além-mar, religiosos tentam associar a pedofilia com a  homossexualidade, numa discriminação injusta e sem fundamento.


No Brasil, o assunto frequenta também as manchetes da mídia impressa e os noticiários televisivos. 

Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, de 06-05-2010, um Monsenhor de
82 anos cumpre prisão, por abuso sexual, na cidade de Arapiraca (AL). 

Outro caso, também em Alagoas, na cidade Craíbas; um terceiro, suspeito, um padre de 74 anos, em Franca (SP).


Situação vexaminosa ocorreu na 48ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, segundo matéria publicada no Jornal O Globo, 05-05-2010.
O arcebispo de Porto Alegre, dom Dadeus Grings, de 73 anos, criou
constrangimento ao afirmar que “a sociedade é pedófila”, e que a pedofilia é
mais frequente entre médicos, professores e empresários do que entre
sacerdotes. 

O conjunto dos bispos brasileiros repudiou as declarações polêmicas acima, mas o bispo de Blumenau, dom Angélico Sândalo Bernardino, em declaração
ao Jornal Folha de S. Paulo, de 06-05-2010, tentando corrigir o colega, negou
que a sociedade seja pedófila, mas afirmou que “tocar numa criança é diferente
de tocar num adolescente”, o que contraria toda a filosofia da lei brasileira
estabelecida pelo Estatuto da criança e do adolescente.


Uma semana após as publicações citadas, volta o noticiário do Jornal O Estado de S. Paulo, de 12-05-10, informando a prisão do padre Domingos José
Rodrigues Cavaleiro, prefeito do município de Domingos Mourão (PI), denunciado
pelo Ministério Público por crime de pedofilia. 

O Jornal acrescenta que, nos últimos dois meses, houve pelo menos quatro casos de pedofilia no interior do Piauí.


Ainda na mesma edição do Jornal O Estado de S. Paulo, encontramos importantes declarações do atual Papa, Bento XVI, em sua viagem a Portugal, quando foi interrogado sobre os escândalos de pedofilia dentro do clero católico. 

Suas respostas foram no sentido de afirmar que “hoje em dia, as maiores perseguições sofridas pela Igreja não provêm de fora e sim de seus próprios pecados”. 

Interrogado sobre as medidas que a Igreja tomará contra
sacerdotes que abusaram de menores respondeu, subindo o tom, claro e incisivo:
“A penitência, a oração e aceitação, mas também a necessidade de justiça,
porque o perdão não substitui a Justiça”.


Seria possível traçar o perfil do pedófilo?

Com referência aos casos citados acima, temos uma amostragem de religiosos celibatários, já passando da terceira idade. 

Os crimes que cometeram não são recentes. 

A maioria das acusações relata casos antigos, que só tardiamente estão sendo denunciados, devido à conscientização maior hoje e, quem sabe, das gordas indenizações pagas. 

Isto significa que os abusos devem ter ocorrido lá pelas décadas de 60-70, quando o catolicismo estava em alta, sobretudo no maior país católico do mundo. 

Nesta época, a família brasileira, em grande parte descendente de italianos,
considerava uma honra ter um filho padre. 

Como os padres gozavam do alto conceito de seriedade e respeitabilidade, as famílias confiavam em deixar os filhos aos cuidados dos religiosos, que só poderiam fazer o bem para as crianças. 

Os padres, por sua vez, protegidos por uma autoconfiança que os colocava acima de qualquer suspeita, poderiam sentir-se seguros na convivência com as crianças. 

A própria teologia moral católica parece contribuir para a infantilização dos fiéis, em geral, quando garante que qualquer tipo de pecado ou de crime será perdoado em troca de recitarem umas três ave-marias, desde que haja arrependimento, e mesmo que haja sempre reincidências. 

Isso é um resquício de um Estado Teocrático, não sujeito às leis civis.


O celibato compulsório dos padres é um componente facilitador para a pedofilia. 

Embora a vida consagrada costume ser considerada como uma sublimação, a pulsão sexual nunca é extinta, e brasas queimam sob as cinzas. 

A vida dos Santos é repleta de episódios dramáticos de supostas aparições do
demônio, sob forma de lindas mulheres nuas, sedutoras e tentadoras. 

Eles apelavam para a oração, a penitência, o cilício, que é um cinto cheio de pontas que feriam o corpo até sangrar, tudo para não cederem aos chamados pecados da carne. 

O que os açoitava era seu desejo sexual reprimido. 

Sendo assim, a pedofilia dos religiosos pode ser pensada, dentro da psicanálise, como o retorno do recalcado.


A atividade sexual do adulto, a experiência afetiva e amorosa com uma mulher, a cumplicidade de uma vida a dois, o compartilhamento do mistério da
paternidade ou maternidade, a contemplação de um filho que desabrocha a cada
dia, fruto do amor, tudo isso leva a um amadurecimento, a um equilíbrio
emocional e psicológico insubstituíveis na experiência humana sadia. 

Já que o celibatário nunca acede ao papel de pai ou mãe, a não ser analogicamente, e aí entra o significado da palavra ‘padre’, contudo, na ordem levi-straussiana das estruturas elementares de parentesco, ele nunca deixa a posição de filho. 

Por isso, o celibato também costuma infantilizar aqueles que o praticam. 

Será de admirar, então, que alguns se sintam atraídos, inclusive sexualmente, por
crianças, reconhecidamente passivas, supostamente disponíveis e fragilizadas,
com chances de que isto não venha a lume?


É evidente que existem pedófilos em outros segmentos da sociedade, em todas as profissões, inclusive entre pessoas casadas e consideradas como cidadãos
respeitados.

A

final, o ser humano é falível e transgressor.







Não é por acaso que 

se criam tantas leis para tentar domesticar uma pulsão sexual que não nega sua 

origem animal.



Conforme o Jornal Correio Popular, de Campinas, S.P. , de 19-05-2010, existem, só em Campinas, 321 crianças vítimas de pedofilia, em tratamento sob
os cuidados dos Conselhos Municipais, segundo dados do Centro de Referência
Especializado da Assistência Social (Creas). 

O Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e Exploração Sexual de crianças e Adolescentes, 18-05-2010, foi marcado pela realização de marchas contra a pedofilia, com expressiva participação popular nas cidades de São Paulo, Campinas e Juiz de Fora, M.G. Segundo dados do Unicef, 17% das 5.660 cidades brasileiras possuem pontos de exploração sexual infanto-juvenil, e 93 delas estão no Estado de São Paulo.
É possível prevenir a pedofilia. 

Pais e responsáveis devem antecipar-se na orientação a seus filhos ou dependentes, no tocante aos riscos da pedofilia, antes que o trauma se instale. 

No caso de abuso, devem denunciar pelo Disque 100, que é um centro de atendimento nacional.


Uma criança é violentada no Brasil a cada três minutos, e 80% dos casos de abuso sexual acontecem dentro da própria família da vítima (Correio Popular,
Campinas, 19-05-2010).
A psicanalista Fani Hisgail, autora de Pedofilia, um estudo psicanalítico,
defende a tese de que a pedofilia não é só um crime contra uma criança, é um
crime contra a humanidade.
Apesar da frequência da pedofilia, atualmente as demais perversões migraram da
pessoa física para a pessoa jurídica, passando à política, ao terrorismo do
Estado, ao capitalismo selvagem. 

Os genocídios, como aconteceu no Nazismo, os atos terroristas internacionais, as guerras mundiais, fazem com que as antigas perversões, como a masturbação, coito anal, fetichismo, sadomasoquismo e tantas quantas, não passem de ‘conversa de botequim’. 

Ninguém mais se preocupa com a vida sexual privada das pessoas. 

Mas a pedofilia continua clamando aos céus.


Bibliografia


ECA. Estatuto da criança e do adolescente. Rio de Janeiro, Lamparina, 2009.
Freud, S. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. Obras Completas,
E.S.B. Vol. X, Rio de Janeiro, Imago, 1972.
Hisgail, Fani. Pedofilia, um estudo psicanalítico. São Paulo, Iluminuras, 2007.
Roudinesco, Elisabeth. A parte obscura de nós mesmos. Rio de Janeiro, Zahar,
2008.

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