2 de mai de 2010

COPA 2014 CHAMARIZ PARA ABUSO SEXUAL

Organizações internacionais de direitos humanos voltam atenção para o Brasil e vão cobrar programas de amparo à infância e adolescência



26/04/2010



Com quatro anos de antecedência, os ministérios do Turismo e dos Esportes já fizeram as contas.

A Copa do Mundo de 2014 vai movimentar R$ 183 bilhões em todo o país, gerar 710 mil empregos (330 mil definitivos), mobilizar 3 milhões de turistas internos e trazer 600 mil estrangeiros.

A confiança, portanto, não está apenas na possibilidade de o Brasil ganhar a Copa, mas na certeza de que o país vai ganhar com a Copa.

Para a Olimpíada, em 2016, as contas ainda estão sendo feitas, mas não resta dúvida de que tudo será igualmente superlativo.

Contudo, em meio a toda essa euforia há quem se preoupe.

Não sem motivos.

Organizações de defesa dos direitos da infância temem que o grande volume de turistas e de operários nas obras da Copa e das Olimpíada possa representar risco para crianças em condições de vulnerabilidade socioeconômica, com o aumento do trabalho infantil e da exploração sexual.

A preocupação está fundamentada em problemas enfrentados por alguns países que já sediaram ou vão sediar algum dos dois maiores eventos esportivos do mundo.

Essas organizações constataram por meio de estudos e relatórios um preocupante crescimento de casos de desrespeito aos direitos de crianças e adolescentes no período de realização das competições.




Elisabeth Bahia, do Ministério do Turismo

Sociedade em ação


Capacitados para prevenir e denunciar

Numa das ações preparatórias do Brasil para a Copa do Mundo de 2014, o Ministério do Turismo (MTur) investirá R$ 3,7 milhões no projeto Turismo e Prevenção à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

O objetivo é sensibilizar o país e incentivar a população e o setor turístico a agir de forma preventiva e denunciar os casos de violação dos direitos da infância.

Até o fim deste ano, 495 profissionais do país participarão de cursos de formação para multiplicar a iniciativa em seus estados.

A intenção é preparar um exército apto a identificar possíveis abusos contra menores de idade.

A coordenadora-geral do Programa Turismo Sustentável e Infância (TSI), Elisabeth Bahia, do MTur, explica que o objetivo é discutir a temática e fazer o levantamento das principais necessidades para prevenção dos casos de exploração, como campanhas e seminários.

Depois disso, estados e municípios receberão recursos do TSI para colocar as ações em prática.

“O gestor regional sabe a melhor forma de abordar o tema no seu estado”, diz Elisabeth.

O público-alvo dos cursos é formado por representantes do setor público, privado e do terceiro setor, pessoas ligadas diretamente à atividade turística e à garantia de direitos das crianças e adolescentes.

Esses cursos fazem parte da primeira etapa do projeto.

Os participantes disseminarão o aprendizado no Distrito Federal e em 17 estados.

Para os estados da região Sul, a capacitação acontecerá de 4 a 7 de maio em Florianópolis.

Para segunda fase do projeto será elaborado um plano de ação com foco na Copa do Mundo de 2014.

A iniciativa abrangerá as 12 cidades-sede da Copa mais a capital da Paraíba, João Pessoa.

Para a última etapa, está prevista a realização de uma campanha de prevenção com abrangência nacional.

Perigo

Sete capitais do país, Curitiba inclusive, estarão às voltas com grandes empreendimentos até 2014.

Devido ao grande fluxo de operários, os canteiros de obras costumam se tornar centros atrativos para a indústria do sexo.

O fenômeno é mais comum em pequenas e médias cidades, mas é preciso considerar o aumento do risco de trabalho infantil no entorno das obras também nas capitais.

Entretanto, especialistas do setor alertam que um risco ainda maior está no fluxo intenso de turistas nacionais e estrangeiros que movimentam a exploração sexual no turismo durante o período de duração dos eventos.

Terminada a Copa do Mundo na África do Sul, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Ecpat Internacional (rede mundial de organizações e de pessoas que trabalham para eliminar a exploração sexual, a pornografia infantil e o tráfico de crianças para fins sexuais) voltarão suas atenções para o Brasil.

Até lá, há muito o que fazer no continente africano.

Conforme essas organizações, somam-se diversos registros apontando para um incremento do tráfico de meninos e meninas nos países mais pobres da África para atender à indústria do sexo.

Investigações revelam que desde 2007 as redes de exploração e de tráfico de seres humanos têm se mobilizado para recrutar mulheres, crianças e adolescentes na Nigéria, Malaui, Moçambique, Namíbia, Zâmbia e Suazilância.

A demanda deve crescer com a chegada de 500 mil turistas para a Copa.

Há uma estimativa de que aproximadamente 38 mil crianças possam ser vítimas de diferentes tipos de violência, em especial do trabalho infantil e da exploração sexual.

Em Moçambique existe o tráfico de mulheres para a África do Sul, onde são vendidas como “escravas” para mineiros perto de Johannesburgo. Duzentas delas foram resgatadas no ano passado.
Conduta

Em 2004, o Unicef, a Organização Mundial do Turismo e o escritório norte americano do Ecpat criaram o Código de Conduta para a Proteção de Meninos e Meninas da Exploração Sexual no Turismo.

Desde então, várias associações de agências de viagens subscreveram o documento, que exige das agências que expressem abertamente seu repúdio à exploração sexual infantil, rechacem todo tipo de contato com redes de prostituição locais e capacitem seus funcionários sobre regras de ética nos países onde estas têm maior influência.


FONTE

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GAZETA DO POVO